Século XV, Região da Península Ibérica, antiga Portugal, Reinado de Don Henrique, o infante.

Monastério de Piedra, ordem cristã dos Cistercienses, ano de 1420.

Martin, esse é meu nome. Estas folhas de junco estão sendo escritas nas primeiras noites deste lugar de reclusão, onde busco meu encontro com Deus.

 – Sou um clérigo, um monge recém-chegado, cheio de perguntas sem resposta.

Esses velhos beberrões não nos ensinam a piedade, apenas ensinam a religião. Nossa “ordem monástica” é boa. Os monges é que não prestam.

Sempre dizem que o problema do cristianismo são os cristãos. Se Jesus me liberasse matava uns dois. Sou um novato, mas quero mudar isso. Que custe minha vida.

Quem tem de morrer sou eu…

Enquanto escrevo esta carta e me escondo em meu pequeno e húmido quarto, os velhos sussurram sobre o Frei Afonso de Poblet. Dizem que o Frei é um covarde, que teme ao Rei e tem entregado o monastério às traças.

Traças eram boas, ruins mesmo eram as espadas dos muçulmanos…

Estavam a invadir a Península desde o século VIII. Matavam animais, queimavam as plantações, assassinavam crianças.  Muitos de nós estavam morrendo nas mãos dos invasores muçulmanos.

Vi tios morrerem nas mãos destes demônios. Não por sorte estou neste monastério. Vim por fé…mas tive minhas lutas, coisa que pra um recém chegado não dá pra contar. Lutar pela própria vida faz a gente fazer coisas.

Quando matar ou morrer é uma escolha, viver é a única opção que me sobrou.

Manhã seguinte, cedo, 5 da manhã.

 – Acordei. Pelo menos isso. Se continuasse em casa poderia estar no terceiro céu uma hora dessa. Mas a terra ainda tem seus infernos. O meu tem sido o Monge Erick Diótrefes.

Esse gordo tem debochado de mim. O vi balbuciando a meu respeito com o Monsenhor Demétrios. Sorte que o Monsenhor é homem bom e piedoso. Todos falam bem dele. Já o gordo Erick têm prejudicado vários aqui dentro.

Foi falado que o magro Ruberth ficou preso em penitência de autoflagelo por uma semana devido à calúnia do gordo. Disse que o magro tinha roubado um dos livros proibidos. Livros dos “Sorrisos do Diabo” como diziam alguns.

Ruberth, o magro não roubou nada. Era um tolo que com medo não deu um belo soco na cara do gordo.

Monge Erick era enorme, homem forte e beberrão. Já havia saído dos trabalhos braçais a tempos. Por manipulação de jovens seminaristas do monastério tnha seus lacaios. O gordo era desses homens de buço suado. Sua estola sacerdotal estava sempre suja ao peito, respingado de gordura e vinho. Sempre estava com bolsos cheios de pães de uma das refeições.

Martin tinha de sobreviver à solidão, e agora ao maldito gordo, que se pudesse iria tentar o jogar às traças de livros do antigo mosteiro.

Hora do desjejum, mas antes disso as orações matinais. Um abade lia em latim as Santas Escrituras, e em tom sombrio , iluminados pelas velas que flamejavam fazendo as pedras tremer em tons de vermelho, os santos e pecadores monges faziam suas preces. Martin se entregava firmemente à oração, concentrado. Ruberth o magro não se concentrava, preocupado com Diótrefes, o gordo. Podia até mesmo ser envenenado, ou sufocado pelas cordas da vestimenta do gigante monge. Seu manto parecia uma gigante cortina de castelo, porém fétido, e seu cinto uma corda enorme, suja de gordura.

O desjejum era café simples. Pães assados no próprio mosteiro, sopa leve de legumes e vinho ralo para a manhã.

Muitos clérigos bebiam pouco, já o gordo se embebedava logo cedo…

Martin se dirige ao trabalho de varrer os locais de oração externo. Um lindo campo, com áreas circulares em frente à entrada principal, forrado de pedras ao chão, em torno de grandes oliveiras. O local ficava fresco, temperatura amena. Lugar ideal para se buscar a Deus. Se via o horizonte de longe, um campo de grama curta. Na verdade um tipo de capim forte, bom para o gado e o rebanho.

Mais um tempo de leitura se dava antes do almoço, e seguido então de orações em voz alta intercalados com o barulho dos escribas que reproduziam fielmente os textos Bíblicos, muitos livros clássicos eram copiados.

Martin se dedicava já aos livros de Agostinho, o Santo. Leitura corrente e fácil, Martin buscava ter a piedade do filho de Mônica mas não se achava a altura.

Um barulho rasga o silêncio. Era o Gordo agredindo mais um noviço.

Entre risadas dizia que iria expurgar todo o mal do corpo do jovem.

 – Irei te exorcizar a força maldito noviço! Arrancarei o mal com sangue e suas tripas – gritava o gordo. O motivo? Ao arrumar o quarto do Monge Erick Diótrefes, o pequeno Ruberth deixou cair cera de vela sobre a mesa de leitura. Mesa que o gordo nem usava.

Por sorte Frei Afonso interviu, botando panos quentes, acalmando o gordo e mandando Ruberth sair dali, como se ele fosse culpado. Ruberth correu mais uma vez, suando, assustado…

Mais uma manhã, após um dia cheio de tumulto criado pelo gordo Erick. Em meio a calmaria do monastério, uma briga era assunto de dias.

Após o desjejum, Martin se direciona ao pátio externo. Serviço diário. Varrer o pátio fazia parte do devocional. “Orare et labutare’. Martin fazia sem reclamar. Claro que o labutar era nas Escrituras, não ficar calejando as mãos em um cabo de rastelo.

Martin senta para orar. Meditando, aquieta sua mente, tenta ouvir a Deus. Martin era um monge de coração puro. Buscava o poder de Deus, mesmo que fosse para morrer buscando.

Após longo período de olhos fechados e sentir a presença quase palpável do Espírito de Deus, abre os olhos como alguém que vinha da morte para a vida. Estava submerso em uma espiritualidade que nunca havia sentido antes. Sua mão formigava, sentia os braços pesados, sua mão aquecida e uma alegria misturada com coragem. Abaixando para ver usas mãos, vislumbrou uma cor azul que o fazia olhar girando os punhos como quem estava com as mãos envoltas em energia elétrica.

Martin levanta os olhos, sua emoção vai da euforia ao medo incontrolável. Ele não acreditava no que estava a ver.

A distância, apertando os olhos pode ver claramente uma horda de cavaleiros, traziam estandartes escritos em árabe, tocha nas mãos, espadas em punho. Gritavam ao longe, sons que ecoavam e assustavam o mais nobre dos homens.

Gritavam seus gritos de “ Allahu Akbar”, ao passo dos cavalos corriam e gritavam.

Martin se levantou desesperado, ao bater as portas do Monastério quebrou o silêncio das orações, e abrindo os braços berrou com os olhos arregalados:

– Muçulmanos! Estão vindo nos matar!

Frei Afonso apressou seu passo cansado para a porta. Era verdade. Conseguia ver as fumaças brancas da poeira dos cavalos, misturando com o verde da grama a as cores de seus mantos bordados com a vermelhidão das tochas em suas mãos.

 – Fechem os portões! Fechem estes malditos portões!

Martin e outros dois pequenos monges pegaram a grande madeira que vedava a porta, arrastaram as mesas para as portas e desesperados buscavam se esconder nos cantos.

O grande e gordo monge Erick, zombava, não se sabe de medo ou deboche, dizendo que todos iam morrer. Um momento de loucura e pânico tomou as pedras antigas do monastério. O monge gigante bailava no meio do corredor, com uma garrafa de vinho em uma mão e taça na outra que derramava marcando o chão com um vermelho que já antecipava o pavor de ver o sangue de alguém.

 – Vamos morrer! Todos morreremos a troco de nada! Morreremos sem filhos e sem os lindos seios das mulheres da vila. Tolos! Somos todos uns malditos tolos!

 – Cale a boca seu diabo! – gritou Frei Afonso. Não blasfeme na hora de sua morte! Não se volte contra o Deus que te sustentou, seu gordo parasita!

 – Hahahahahaha – sorriu como um possuído. Morra seu velho! Morraa!

Frei Afonso lhe deu um tapa na cara, mas o gordo apenas sorriu. O tapa do velho era nada perante aquela face lustrosa e carnuda.

– Corram para os aposentos subterrâneos! Façam todo o silêncio que possam! Se escondam! Sussurrou Frei Afonso.

Já se ouvia os cavalos bufando nos portões, quando os monges já escutavam os pés batendo nos portões.

 – Abram cristãos malditos! Serão sacrificados! Purificaremos vocês com seus próprios sangues.

Um cavalo foi amarrado a porta. Ao todo eram cinco homens. Seis cavalos ao todo.

Dava para ouvir o cavalo puxando a porta amarrada à cela por correntes. Junto com a força do animal os invasores batiam nas dobradiças. Pedras começaram a se soltar, junto a poeira levantada pelo cavalo a porta sedia.

Os monges estavam desesperados. Tremiam divididos em grupos de três ou quatro. Martin procurando se esconder não conseguindo achar ficou no fim da Biblioteca. Talvez conseguiria se esconder num lugar fora do interesse desses homens. As riquezas ali não seriam valorizadas para quem queria os ouros da terra. Martin queria os ouros dos céus. Estava chegando a hora de recebe-los.

A porta caiu, e junto com o estrondo as risadas de Erick pioravam a cena.   Os cinco homens tinham em suas mãos grandes cimitarras; espadas curvas, afiadas e temidas.

Dois deles avistaram logo o gordo sorrindo, como quem entregasse a vida.

O pegaram pelo braço, e sem conversar nada e murmurando ao mesmo tempo o ajoelharam em meio ao refeitório. Arrastaram como um porco.

– Você parece um porco! Irá morrer como um porco! – disse o homem de pele escurecida pelo sol.- Foi o que disse o homem que parecia o líder dos assassinos.

Além dos barulhos dos que empunhavam as espadas, o silêncio no monastério era fora do normal. Era mortal.

Levantaram Monge Erick pelas orelhas. – Grite porco! Grite!

Erick podia ser tudo, menos covarde. Erick cuspiu na cara do invasor e gritou em um ímpeto de lucidez:

– morro pois já morri seu maldito! Mesmo sendo o cretino que fui em vida não me entrego a vocês! Minha vida está no Deus Pantocrator! A sua jaz no inferno! Morra você maldito filho de Ismael!

Erick deu uma cabeçada no nariz do líder muçulmano, que limpando o sangue descodriu sua espada curta da cintura e enfiou no ventre do gordo Erick, que arregaloou os olhos.

 – Grite porco. Disse o líder.

Com a facada, o homem , experiente no uso do punhal rasgou as víceras do Monge, movimentando mão direita do lado esquerdo ao direito de Erick, enquanto os seus companheiros seguravam Erick pelos braços.

Um corte preciso.

Quando soltaram os braços do Monge, ao cair de joelhos suas vísceras escorreram para fora da barriga, caindo no patio, com o sangue formando um avental de sangue. Erick olha pra baixo ainda vivo, tentando segurar o que estava para fora mas não adinatava mais. Com o sangue, sua vida se esvaía junto.

Erick viveu naquele monastério, e também morreu n’ele.

Logo que o gordo bate ao solo os homens começam a vasculhar os aposentos.

Fuçavam, jogavam os cricifixos ao chão, e começavam a queimar com as velas da area de refeição as bíblias expsotas.

 – Aonde estão voc~es monges malditos! Queimarão no mármore! – gritava o líder.

Homem de pele queimada, nariz grande, olhos escuros e dentes apodrecidos.

Seus súditos tinham semelhante aparencia, e em cada grito do líder, respondiam com um “Allahu Akbar” a toda altura.

Para eles, sacrificavam por Deus. Para os monges, morrer tinha o mesmo valor. Eles matavam por Deus. Os monges morriam por Cristo.

Saíram metendo os pés nas portas, e em cada porta aberta a busca por itens de valor sendo frustrada era promessa de morte dos frágeis monges.

Findando o corredor, estava a Biblioteca. Matrin não conseguira se esconder direito, não sobrou aposento, não conseguiu ir para seu quarto ao menos morrer onde passara a viver sua nova vida.

Os demais monges respiravam com dificuldade para não serem descobertos, escondidos em pequenos dutos abaixo do solo. O que ficou em melhor estado se escondeu me meio a garrafas de vinho da produção do monastério. Os demais conseguirem se esconder nas valas das fezes que vinham dos sanitarios coletivos. Bancões de madeira que recebiam as fezes e após muita água escorria o churume para esses dutos. Pequenas paredes cheias de fezes e ratos do mato. Não dava pra uma pessoa ficar de pé, mas neste momento não havia necessidade.Esconder er ao bastante.

Dois dos homens avistaram a Biblioteca, como quem acha um tesouro.

 – Deve ser ali que esses monges acumuladores guardam seus bens que roubam com suas malditas indulgencias!

Meteram o pé na porta, que abriu sem muito esforço. As portas bateram, opostas, dando um barulho estalado. Olharam os livros e gritaram de ódio.

 – Não é possivel, esses malditos guardam apenas livros! Livros? O que querem com malitos livros? Que valor há em papel escrito? Eles não são os Dhimmis! Malditos e miseráveis Cristãos!

Martin estava imovel, perto do último armário da sala. Sua tremedeira chamou atenção dos saqueadores.

Martin foi visto. Suava como um maratonista. Tremia com as mãos postas nas paredes. Seus joelhos dobrados, pernas e braços abertos, junto com seus olhos arregalados. Sua boca balbuciava uma oração baixa e curta:

 – me ensine ó Cristo morrer com dignidade e me dê seu poder! me ensine ó Cristo morrer com dignidade e me dê seu poder! me ensine ó Cristo morrer com dignidade e me dê seu poder!

Os homens trocaram as espadas de mão, se posicionaram com o pequeno e frágil monge a frente, como um leão que ruge perante sua presa rangiram os dentes. Se encurvaram para dar o bote e pegar Martin.

Martin sente suas mãos suarem, aquecerem e formigarem, assim como fora no seu momento devocional.

 – me ensine ó Cristo morrer com dignidade e me dê seu poder!

Martin tira suas mãos da parede. Mira aos inimigos não como quem está tentando parar as espadas antes de lhe atingirem o rosto, mas mira como quem estava a paralizá-los com seu medo.

Martin vê suas mãos brilharem. Um brilho intenso. Se lembra de Cristo, de seu rosto que brilhava na transfiguração.

Seu temor estava misrturando a uma coragem e ira. O monge serra seus punhos e os junta ao corpo. Sua mão é envolta de uma lus azul, com eletreicidade a circundando.

Os muçulmanos se espantam. Martin não muito longe porém com um misto de magnitude dá um passo a frente. A luz é intensa e aumenta a cada passo.

Martin dá passos a frente e os invasores recuam com ódio.

Martin em um súbito ato de coragem grita contra os homens e estica seus braços com as mãos abertas e mira em sentido a um deles.

Com que um pequeno trovão sai um raio de suas mãos e atinge um dos homens. O barulho era como se um raio tivesse caído no monastério.

Era um tiro de energia, um poder que saíra das mãos de um monge prestes a morrer.

O raio queima o peito do homem e espalha ao longo do corpo uma descarga de energia. O soldado é arremessado a parede, soltando sua espada que está incandescente, como um aço que saíra da fornalha.

Seu parceiro o olha caído no chão. Martin olha para suas mãos ainda azuis brilhantes.

O homem caído com a boca aberta havia sido incendiado por dentro. Saía fumaça pelo buraco dos olhos que já não haviam.

Seu parceiro teme tocá-lo e estarrecido com o que estava vendo foge andando para trás, ainda atônito. Sua coragem deu lugar a mais extrema covardia.

 – Fuja Mustahan! Vamos correr deste lugar amaldiçoado! Filhos do diabo! Filhos do Diabo!

Martin aparece no salão principal correndo e vê os homens que restaram agora correndo de sua presença. Inacreditável!

Eles montam em seus cavalos. Mustahan olha para trás, ainda tentando entender o que havia acontecido. Seu olhar de ódio encontra Martin parado a porta.

 – Lhe encontrarei pequeno monge! Lhe encontrarei!

Os cavalos levantam fumaça e somem no horizonte…

Martin é rodeado pelos monges que também choram a morte do grande monge Erick. Outros vêem Martin a porta, ajoelhados e louvando a Deus. O velho frei Afonso o abraça.

 – venha filho, você precisa descansar.

 – o que aconteceu comigo? – Pergunta Martin.

 – Cristo o revelará, meu filho. Jesus te revelará sobre seus poderes…


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